







A arcada dentária é característica universal que liga pela mordida todos os povos da terra. Portanto o movimento dialético entre o que está fora e o que está dentro resolve-se na devoração, força motriz do desejo ou luz do anjo caído que institui o canibalismo nas hostes do céu. Nossa fome despreza o sucesso.
Este não é um manifesto brasileiro, tão pouco latino americano ou europeizante. Insistimos em desconhecer o fronteiriço. A Revolução caraíba é a vingança suprema contra a civilização e embora sua geografia metafórica envolva a rebelião dos povos colonizados, a sua extensão e o seu significado desconhecem limites territoriais. Não somos nacionalistas. Não herdamos paranóias modernistas para uma cultura “ puramente brasileira “: Trata-se de uma excrescência que alimentou tanto fascistas quanto stalinistas e que portanto deve ser varrida para fora do espírito.
Na segunda metade do século passado fizeram em grande parte a leitura concretista da antropofagia. Nós fazemos a leitura surrealista acrescida das experiências de contracultura. Exercemos a deglutição e ambicionamos a reestruturação da contracultura enquanto a peste desconstrutora da civilização burguesa. Nossa leitura antropofágica no tocante ao Surrealismo não se confunde com o movimento surrealista: Este é especifico. Apenas reivindicamos sua influência no plano espiritual e da criação. Julgamos que as revelações surrealistas traduzidas brilhantemente no pensamento de André Breton, anunciam a idade de ouro: Esta é fundada na poesia, no amor e na liberdade. Para nós o Surrealismo não é pré-antropofágico, mas um programa revolucionário dotado de particularidades que está em franca sintonia com o projeto da antropofagia.
A europeização do mundo corresponde a uma crescente doença que ameaça a dignidade humana. Herdada pelas culturas dominantes das Américas, a civilização é felizmente golpeada por uma oposição mágica: Nas matas e nas visões dos curandeiros, nas senzalas e nas sarjetas localiza-se a negação mais radical do mundo civilizado. O relex indígena e a consciência rítmica afro. É o Beat, o Beat, o Beat, a batida e a busca pela bealtitude que Allen Ginsberg, Jack Kerouac e outros anjos perdidos estabeleciam no século passado. Beat ou improviso, cabeça antenada e quadril que se meche para além dos limites dos Estados nacionais. Salve a sarjeta continental das Américas!
Se a contracultura implica em opor-se(sem nenhuma forma de sistematização prévia) aos valores das instituições que fundamentam a cultura dominante, então ela é uma constante histórica. O nosso tempo não é exceção a isso. Contracultura envolve uma produção que está a margem do reconhecimento oficial. Num mundo marcado pela pluralidade e pela fragmentação, apresentamos o valor poético que é necessariamente fora da lei(afinal, este mesmo mundo é controlado, mesmo em sua aparente diversidade, pela tirania do mercado e da lógica). Não existe verdade absoluta, mas interpretação. Há um homem soterrado nos escombros das determinações psicológicas e culturais do colonizador. Nosso objetivo não é outro senão mostrar-lhe a saída em direção a luz da revolta.
A contracultura popularizou-se nos anos sessenta mediante a evidência midiática. Porém, de modo algum ela restringe-se aos estereótipos daquela época: A experiência contracultural passa pelo cultivo das tradições e não pela repetição das formas. Quarenta ou cinqüenta anos na História da cultura não são nada. Novo contexto: Releitura. Numa clara tendência que obedece ao contexto pós-tropicalista, rejeitamos com toda a violência necessária qualquer forma de centralização de poder, expressa por exemplo na estrutura de grupos. Devoramos nossas referências mas não aceitamos lideres para a tribo. Não somos marmita ou sanduíche: Ao provarem de nossa carne avisamos as senhoras e os senhores, que sentirão o gosto da mandioca braba.